Friday, July 16, 2004

Embriaguez nocturna

Observo a sombra do que sou,Medito sobre ela e mato-a de seguida…
Preciso de fugir.
Deixo-me envolver pelo líquido verde que ingeri,Invento um novo eu, uma nova realidade…Imagens distorcidas, sons indefiníveis,Ilusão ou apenas alucinação?...
A visão que antes era turva,torna-se agora clara!
Esfrego os olhos demasiadamente negros e cansados…
Sigo o caminho do manicómio,passeio em dias sombrios,onde chovem guarda-chuvas do céu,onde gritos estridentes me fazem rir…
Penduro a carne humana no estendal do meu quintal imaginário.
Semeio insanidades no meu jardim de cinzas e raízes secas.
Continuo a sonhar acordada, num substrato de névoa…
Sou a audiência da minha própria peça de teatro,As personagens mórbidas...dementes!
Só minhas…
Decoro o cenário com esculturas gregas,envolvendo-as em gaze colorida…
Há um cheiro de maças escondidas numa cave abandonada.
Os espelhos partidos reflectem as fendas dos telhados…
Os gatos escondem-se na sombra das cortinas ensanguentadas,as árvores cedem e os ramos estalam com o ímpeto do momento!
Acordo com o murmúrio das vozes silenciosas…
Onde estou?
 Sinto-me só.
Sinto a dor do absurdo de existir!Fora levada pela brisa do esquecimento.
As palavras escapam-me por entre os dedos trémulos.
O silêncio torna-se ensurdecedor.

Quando eu morrer...

Quando eu morrer não quero campa,nao quero lápidemuito menos uma cruz...
Quando eu morrer quero ser lançada ao mar,queimada,atirada ao vento,ou atirada para uma vala...
Não quero um caixao!Nao preciso dele...
Assim como não quero um funeral,nem lutos,nem lágrimas.
Nem amor,nem beijos...não mais do que tive em vida!
Quando eu morrer,não quero amor...
Quando eu morrer,não quero flores...
Quando eu morrer,não quero amigos...
Quando eu morrer já não preciso!
Não quero que me lembrem,não quero que pensem em mim,não quero que me peçam desculpas,que me lamentem,que me agradeçam,Não!
Não quero que me compreendam...Se não o fizeram em vida,não tentem depois.
Aí já não adianta, já de nada serve...
Quero que me amem,quero que me odeiem,quero que me ignorem,que me deixem,não quero que a morte seja diferente,da morte em vida...
Não quero velas nem memórias!Quando eu morrer,quero morrer!
Deixar de ser...Quero desprender-me,tenha ou não encontrado,tenha sido ou não feliz,sozinha ou nem por isso,no caminho certo ou errado,cega ou vendada,em nascimento ou já morta!
Quando eu morrer quero acabar de uma vez,apodrecer nas águas do mar,perder-me espalhada no ar...A morte é o último acto de vida!
Nesse último momento quero sentir um alívio enorme...
Não quero Céu nem Inferno,quero que a minha alma morra com o meu corpo,quero o nada...quero o NADA,Que por muito doloroso o deixe assim de ser.
Quando eu morrer não quero que me fechem os olhos,já os fexei muitas vezes em vida.
Não quero descansar em paz!
E se tiver que morrer sem ter vivido,quero que todas as nuvens tenham um pouco do meu cinzento,quero que todas as gotas de chuva tenham um pouco das minhas lágrimas,quero que todas as catástrofes e tempestades tenham toda a minha raiva,quero que todas as noites sejam o meu luto...
E se tiver que morrer sem ter vivido,quero ser egoísta ao ponto de não desejar felicidade a ninguém,e de dizer : "puta de vida,a morte há-de ser melhor!"

I'll stop the world and melt with you...

Quero sugar um pouco da tua alma,
um pouco do teu sorriso,
um pouco do teu olhar,
um pouco de ti...
Como se fosses um vinho,que eu pudesse sorver de um só trago,e ficasse embriagada...
Vamos dar as mãos,correr no meio do nada!
Escavar a nossa sepultura,pintar quadros com o sangue de um estranho.
Vamos voltar aquela noite...
Só um instante!
O tempo suficiente para te matar de novo...uma vez mais...uma vez mais...uma vez mais...
Sentir o pulsar do teu coração,ainda quente,nas minhas mãos.
Ver-te uma vez mais,e apagar-te da minha memória...
afundar-te no esquecimento!
Não passas de um sonho mau,
algo que foi perdido no vácuo do tempo.
Ainda hoje ecoam as tuas últimas palavras...
Como vidros partidos,cravados na pele...
E pensar que eras tu...E tu eras eu...E eu matei-te,ao mesmo tempo,em que morri.

Mão Morta

Tu disseste "quero saborear o infinito" Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis" Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados" Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar" Tu disseste "eu também já tive medo, muito medo… recusava-me a abrir a janela, a transpor o limiar da porta" Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala" Tu disseste "um dia fiquei sem nada, um mundo inteiro por descobrir…" Eu disse "...”Eu disse "o que é que isso interessa?" Tu disseste "...nada"Tu disseste "agora procuro o desígnio da vida. Ás vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon. Escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. Depois queimo tudo e prossigo a minha busca"Eu disse "eu não faço nada. Fico horas a olhar para uma mancha na parede"Tu disseste "e nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?"Eu disse "não. A mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"Tu disseste "e no entanto a mancha alastra e toma conta de ti… liberta-te do corpo, tu é que não vês"Eu disse "o que é que isso interessa?" Tu disseste "...nada“Eu disse "o que é que isso interessa?"Tu disseste "...nada"

Em vão...

Em vão...
todos os silêncios perdidos,todas as horas gastas,saturadas,impregnadas de ti.
todos os olhares vazios,todos os sorrisos esquecidos,toda a saudade que mata...tudo!
tudo em vão...
Não te digo Adeus,despedir-me de ti seria admitirque um dia poderia esquecer-te...
Vou apenas apagar da memóriao calor dos teus lábios,a ternura do teu toque,o som dos teus passos...
E vou matar-me,quantas vezes for preciso,até rasgar por completo todas as memórias...
Vou calcar e esquecer a mágoa que deixaste,cultivar o coração que abandonaste,deserto árido , perdido entre véus e sombras de melancolia.
Odeio amar-te tão perdidamente,tão insanamente...
Escondeste em cada canto,em cada sombra,em cada partícula de vida e morte que há em mim...
Vai-te,deixa-me viver!quero ser o que nunca fui...
quero ser livre e sorrir,quero sentir o sabor da frescura matinal,sorrir ao espelho,quebrado pelo tempo...
acordar todos os meus sentidos e apenas ... viver!
Ser e não Ser...Viver ou apenas Morrer...não interessa,não quero saber!
Quero esticar o braço e alcançar a lua...
Quero ser o nada,Quero o impossivel, o inalcançavel!
Ser...a perdida,a achada,a ignorada,a vencedora...a falhada!
Ser tudo...e não ser Nada.

Os meus colares de pérolas fingidas

Revejo-me em cada silêncio que sufoca,em cada palavra calada,em cada sofrer sem sofrimento,em cada querer sem vontade,em tudo,ou apenas em nada.Acendo nos dedos as memórias,esquecidas pelo próprio esquecimento.Arranco do pescoço uma mão que me sufoca.Depois viro a mão e a imagem fica diferente!Maldito este sonho sôfrego,que me destrói...Com as minhas próprias mãos,me estrangulo.Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada,esta reflexão que me embala,entre ecos de vozes incógnitas...Estou lúcida e triste,como um dia frio.

Hoje

Hoje murmurei um segredo ao vento...Falei-lhe de épocas distantes,de civilizações imaginárias...De odores nunca antes descritos!Invento uma nova realidade,vivo a morte e morro a própria vida...Mergulho no êxtase febril da embriaguez.Esqueci quem sou,parei o relógio da minha existência...Olho,inexpressivamente, a clepsidra de areia...Rio mordazmente, desta entediante vontade de viver.Tenho vontade de levar as mãos á boca,morde-las,a fundo e a mal...Quebrar a fragilidade humana,espancar até quebrar o último osso,sangrar até á última gota,Quero perder todo o nada que tenho!E quando estiver a um passo do fundo,quero ultrapassar a meta da decadência mental...quero rir e saborear o momento!

The hours

“Dear (...) , to look life in the face … always to look life in the face, and to know it for what it is. At last, to know it, to love it for what it is, and then … to put it away ...Always the years between us, always the years … always … the love … always … the hours.”

Para sempre ...

Aqui estou,na casa muda e triste...para sempre.Está uma noite fria...vazia de qualquer sentimento.Divago nas palavras que fluem,afundo-me nos sons diluídos...Ouço ao longe o gemer de um violino esquecido á beira mar.Melodia triste e áspera a minha....Sou o entardecer de um dia que nunca nasceu.Aqui estou...na casa de paredes fingidas,de memórias esquecidas,de pesadelos cortantes.Pinto de vermelho o espaço vazio que me separa de mim.Encontro no silêncio respostas.Danço com o crepúsculo da noite,conto-lhe segredos...brinco com as orquídeas azuis que enfeitam o luar.Ao longe a menina que brinca com os cisnes no lago cristalino...Vejo o reflexo do seu rosto no azul da névoa que a envolve...Sento-me e vislumbro a sombra do que outrora fui...Afugento os pensamentos,asfixio as palavras que escrevi...Procuro na minha solidão,o conforto do silêncio...Perco-me no espaço entre o pestanejar e a lágrima que cai...Aqui estou na casa imaginária,muda e triste...para sempre.

Algumas frases que valem a pena ...

"Todos somos chamados, pelo menos uma vez na vida, a desempenhar um papel que nos supera. É nesse momento que justificamos o resto da vida, perdida no desempenho de pequenos papéis indignos do que somos"...
Felizmente há luar! Luis S. Monteiro
 
“Answer that you are here…that life exists and identity,That the powerful play goes on, and you may contribute a verse.”
Walt Whitman"
 
Porque é que afinal escrevo? Levei a vida toda a arranjar razões. E chego ao fim sem nenhuma. Mas deve ser essa a única verdadeira. A que não sei. A de que escrevo porque sim. Será uma razão igual para deixar de escrever. E tudo será igualmente perfeito."
Vergílio Ferreira in Contra Corrente 5"
 
(...) E sempre o mesmo trágico desejo de dar outra expressão ao que foi dito(...)"
Miguel Torga
 
"Cai leve, fim do dia certo, em que os que crêem e erram se engrenam no trabalho do costume, e têm, na sua própria dor, a felicidade da inconsciência. Cai leve, onda de luz que cessa, melancolia da tarde inútil, bruma sem névoa que entra no meu coração. Cai leve, suave, indefinida palidez lúcida e azul da tarde aquática - leve, suave, triste sobre a terra simples e fria. Cai leve, cinza invisível, monotonia magoada, tédio sem torpor".
Bernardo Soares in Livro do Desassossego

you gave me nothing but shattered dreams

hoje queria apenas adormecer os sentimentos.
deita-los e aconchegá-los nos meus braços,dar-lhes carinho,fazê-los sentir que não estao sozinhos...
hoje apenas pedaços de mim,pedaços de ti espalhados pelos cantos...
E se apenas pudesse despedir-me de ti,arrancar-te do meu pensamento,fazer-te morrer dentro de mim...Tão longe e tão perto,Tão frio e distante...lágrimas corrosivas que não cessam,que deixam um rastro de desilusão,de solidão....
cansada de percorrer o mesmo caminho,cansada de adormecer todos os dias com a mesma angústia. E se apenas pudesse suster a respiraçao e ouvir o ultimo palpitar de um coraçao vazio,perdido algures em mim.
hoje queria apenas poder ter a tua mão na minha e não sentir a dor da tua ausência. ...
poder encontrar-te em cada olhar vazio,em cada murmurio,em cada silêncio que mata.
como pudemos perder o sonho que estava nas nossas maos? és letal,como um veneno que suavemente me vai matando... restam apenas gemidos de um violino que chora...àspera melodia a minha...

Miguel esteves cardoso - O amor é fodido

"Quanto mais longe, mais perto me sinto de ti, como se os teus passos estivessem aqui ao pé de mim e eu pudesse seguir-te e falar-te e dizer-te quanto te amo e como te procuro, no meio duma destas ruas em que te vejo, zangado de saudade, no céu claro, no dia frio. devolve-me a minha vida e o meu tempo. diz qualquer coisa a este coração palerma que não sabe nada de nada, que julga que andas aqui perto e chama sem para por ti. . ."