Friday, July 16, 2004

Mão Morta

Tu disseste "quero saborear o infinito" Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis" Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados" Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar" Tu disseste "eu também já tive medo, muito medo… recusava-me a abrir a janela, a transpor o limiar da porta" Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala" Tu disseste "um dia fiquei sem nada, um mundo inteiro por descobrir…" Eu disse "...”Eu disse "o que é que isso interessa?" Tu disseste "...nada"Tu disseste "agora procuro o desígnio da vida. Ás vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon. Escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. Depois queimo tudo e prossigo a minha busca"Eu disse "eu não faço nada. Fico horas a olhar para uma mancha na parede"Tu disseste "e nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?"Eu disse "não. A mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"Tu disseste "e no entanto a mancha alastra e toma conta de ti… liberta-te do corpo, tu é que não vês"Eu disse "o que é que isso interessa?" Tu disseste "...nada“Eu disse "o que é que isso interessa?"Tu disseste "...nada"

1 Comments:

Blogger Jobim said...

Nada nos interessa..talvez nada seja a vida, mas um nada com muito para dar e valorizar...tal como valorizas a mancha na parede :)

Beijo

August 18, 2005 at 11:05 AM  

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